metade de ontem
   1992

acabei de descobrir que cresci.

a cidade muda, quando não conheço mais ninguém. há dezenas de semáforos espalhados por vias que costumavam ser tranqüilas e, mesmo assim, me reconheço na cidade. ando pelas ruas, com os mesmo passos miúdos de quem cortava caminho pra ir ao colégio, às aulas de inglês. acenam senhoras e senhores que passam carregando seus pacotes ao perceberem a semelhança que tenho com a minha mãe e retribuo num sorriso sem graça, quase forçado, apesar de saber que há doçura no aceno deles. por aqui respondo por kika.

encontrei o meu primeiro namorado com quilos a mais, menos cabelos, uma esposa e duas filhas já grandinhas. senti um certo alívio. nunca quis isso pra mim. parei numa lanchonete, pedi um pão de queijo e não vi ninguém que pudesse me acompanhar para um café. senti falta do tempo que não tinha vícios, nem problemas, nem arrependimentos, nem mentiras pra esconder.

dirigi por alguns minutos escutando e-bow the letter do rem. definitivamente não tem a ver com a cidade. queria ter as lembranças mais claras, mais recentes, mais leves e vejo o quanto ter vivido aqui refletiu no que sou hoje. queria ter coragem pra voltar, de vez.

cheguei em casa e encontrei uma família que não a minha. mas disso eu já desconfiava.


engraçado como as coisas são. eu escrevi isso no dia 11 de novembro de 2004, quase três anos atrás, numa dessas visitas que fazia ao crato de vez em quando, quando me surpreendia todas as vezes com algum fato diferente, com algum sopro de elucidação. só que alguns anos depois, por razões tristes o bastante pra eu continuar sendo vaga na explicação, voltei a morar no crato. voltei porque estava sem forças pra querer qualquer coisa boa pra mim. voltei porque achei que aqui fosse encontrar a paz e o apoio que eu tanto procurava. e eu estava certa. hoje, posso me dizer feliz, tranquila, em paz. faltam alguns ajustes, os quais considero mínimos, pra viver em quase perfeita ordem. coisas muito mais fáceis de resolver, enquanto questões de cunho exclusivamente financeiro. me vi relendo alguns textos do blogue e me peguei pensando o que me levou a escrever isso há tão pouco tempo. é, eu acho que dei uma chance a esta cidade. uma oportunidade de se provar menos elegante e mais honesta em sua simpleza; menos agitada e mais confortante; mais gentil, menos apressada, mais do que eu realmente preciso agora. o brilho às vezes cega a gente e como tem gente que não vê.




Escrito por candie às 23h16
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rue de la paix

[para hina mirella]

e espalhou-se a notícia: antônio iria casar. já imaginava que algo estranho feito isso pudesse acontecer, mas nunca que, em tão pouco tempo, aquele homem pusesse a vida novamente nos trilhos.

passaram-se semanas comuns até que me procurasse manso, cheio de boas intenções e incansáveis lições de vida agora-sou-um-homem-sério, cristina-me-faz-tanto-bem, consegui-financiar-uma-casa, etc. analisei friamente a possibilidade de uma conversa entre adultos (mais por mim do que por ele), porque precisava fechar os meus ciclos. até que se deu o encontro.

esperei por vinte minutos sentada de costas para a porta da padaria. não queria que uma provável reação estranha minha entregasse alguma intenção distinta daquilo pretendido. dobrava em lascas e precisão aquele papel, agora quadrado, recebido no sinal. de fato, já não pensava nele, naqueles pés bonitos, nas pernas que caminhavam descompassadas atravessando o quarto e o corpo inteiro meu. já não trazia aquelas lembranças avulsas dos dias em que aparecia na minha frente refletindo todo e qualquer raio de sol dos fins de tardes quentes de dezembro. eu tinha guardado tudo quanto fosse vestígio do passado dentro de uma gaveta pesada, no fundo de um lugar que nem meu era; tinha avançado todo o processo de esquecimento pra depois analisar friamente se assim quisesse. acreditava tê-lo olvidado, enfim.

pedi um café pra esquentar o peito. marcamos ali porque tínhamos que conversar às vistas de pessoas normais, que voltam diariamente pra casa carregando seus pães, pensei. por dois minutos nem percebi a xícara na minha frente. ao primeiro gole, a lembrança de que não o havia adoçado. dois saquinhos de açúcar e quase sem diferença no paladar: já estava tudo amargo, impossível continuar. comecei a escrever coisas desconexas num guardanapo de papel. mais parecia aquele tipo intelectual que senta à mesa das livrarias, pede café, rabiscando qualquer coisa e olha pras prateleiras como se enxergasse poesia em absolutamente tudo. mas eu não enxergo poesia em nada. desde o dia em que.

lufadas estranhas de vento trouxeram folhas secas e papéis sujos para debaixo das mesas. entrou poeira no meu olho e deu uma vontade enorme de chorar. assim, ele me entra assanhado, camisa amassada, cara de quem tava ocupado demais para se olhar no espelho antes de sair de casa. teria vindo de casa? desatinei. começamos como se começa qualquer conversa de antigos conhecidos: perguntas sobre a família, emprego, por onde se anda, essas coisas banais. mas não era o bastante pra aquele rapaz, que não quis parar ali e devassou a minha vida de um jeito que nem deu tempo respirar. ele falava e questionava e em seus olhos eu vi brotar uma nova semente de raiva e desgosto, como que me responsabilizando por ter destruído a sua vida com todo aquele lodo asqueroso do amor. vezenquando eu olhava pra porta, como que quisesse sair correndo e sequer pagar o café. perdia a coragem, obviamente, e me limitei a mexer com a colher aquele café já frio do repouso e sem o odor necessário que nos faz querer tomá-lo de uma só vez. uma vontade enorme fazer parecer que aquilo não estava acontecendo comigo. então, sorrindo segui o acinte, evitando os olhares estranhos.

depois de recolher suas garras, falou-me das saudades, do peso do passado, das mãos enlaçadas nas entressafras de amor. precisei respirar mais fundo e lhe falei da alma rasgada, dos dias de medo e fúria meus, da mais triste solidão compartilhada. dois olhos arregalaram-se assustados - soldado raso em tempo de guerra no alto do campanário da igreja - parecia surpreso, quase me fazendo rir. mas a gente não deve rir dessas coisas absurdas, mesmo quando não dói mais como doeu um dia. respirei um pouco mais profundamente e contei, em silêncio, até dez. repeti a contagem outras três vezes, até o enjôo passar. pedi outro café, pra não parecer nervosa de mãos vazias. enfim lembrei do açúcar, fiz tudo certinho. esperei o momento certo pra dizer todas aquelas coisas engasgadas, amarradas, atravancadas de desgosto.

encerrei o assunto sem direito à réplica e levantei estendendo a mão na intenção de selar a despedida. caminhei valente, sem olhar pra trás. pois novamente um vento forte, daqueles que não trazem papéis ou folhas, me soprou: eu não vou casar, só queria te ver. em seguida, o alarme do carro que dispara e nada mais ouvi. segui saciada aquele fluxo contínuo do trânsito e da vida que teimava em repetir: tudo o que nasce, morre.



Escrito por candie às 07h45
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